Na Portuguesa, Tite descobriu que tinha jeito para fazer gols

No Canindé, a posição mais adiantada aflora qualidades como o bom cabeceio e a leitura de jogo para saber o momento de entrar na área

 

GaúchaZH relembra, em quatro etapas, a carreira de Tite como jogador, do início na Serra ao calvário das lesões no Guarani. Abaixo, a segunda fase da trajetória, em que ganha destaque com a camisa da Portuguesa. 

Após passagens por Caxias e Esportivo, Tite chegou a São Paulo para cumprir um contrato de empréstimo de seis meses com a Portuguesa. Pelo caráter provisório do vínculo, não levou a namorada, Rose, nem os familiares. Morava na concentração do Estádio do Canindé. Ewerton garante que eram instalações confortáveis, semelhantes às de um bom hotel.

Após a estreia, em janeiro, em um empate com o Santa Cruz, o técnico Candinho foi demitido e substituído por José Poy, ex-goleiro do São Paulo. Poy resolveu mudar de posição o novo reforço. Colocou-o como um ponta-esquerda e lhe deu a camisa 11, como no início da caminhada nos juvenis do Caxias. Em teoria, era um dos três atacantes da Lusa. Mas se deslocava, ajudava a preencher o meio-campo e auxiliava na marcação.

A função mais adiantada despertou-lhe um surpreendente lado goleador. Já no primeiro jogo sob o comando de Poy, em um 5 a 2 sobre o Auto Esporte-PI, Tite marcou duas vezes.

Timidez e boas atuações em campo

Logo sua aptidão para o cabeceio e a leitura de jogo, que o levava à grande área na hora certa para surpreender a marcação, chamaram a atenção. Dois dias depois da goleada, em 14 de fevereiro de 1984, a Gazeta Esportiva deu destaque à grande atuação do “gaúcho de futebol habilidoso e bom toque de bola”. “Tite vira ídolo”, estampou o título da reportagem, com a ressalva de que Poy pedia calma com os elogios. No texto, o novo “ídolo” é descrito como um “moço inteligente”, mas prefere descartar o papel de referência do grupo:

“Sinceramente, não tenho nenhuma pretensão de ser líder ou ídolo no Canindé. Quero, isto sim, participar das partidas e ajudar meus companheiros”.

A torcida da Portuguesa gostava dele. Não era o principal jogador, mas tinha seu destaque.

ANTÔNIO QUINTAL

Jornalista e torcedor da Lusa

Quem conviveu com Tite nos tempos de Portuguesa não esconde alguma surpresa com o rumo que sua carreira tomou. A descrição mais frequente é de um jovem um pouco tímido, nada expansivo, que ainda não mostrava algumas das características tão necessárias para ser treinador. Talvez o peso da mudança para São Paulo, deixando sua terra, tivesse impactado seu comportamento. Havia, também, o possível inibidor de ser um cara de 23 anos em um grupo com jogadores experientes.

Ainda assim, galgava espaço com atuações consistentes e gols. Tornou-se titular em uma campanha que ganhava corpo à medida que o time avançava no Campeonato Brasileiro.

– A torcida da Portuguesa gostava dele. Não era o principal jogador, mas tinha seu destaque e marcava gols – elogia Antônio Quintal, jornalista e torcedor do clube que, hoje, apresenta o programa Paixão Lusa, na Rádio Trianon de São Paulo.

Acervo / Gazeta Press
A fé sempre presente: Tite reza na concentração da PortuguesaAcervo / Gazeta Press

Companheiro de quarto de Tite na concentração, o meia Gérson Sodré lembra de um jovem retraído, que declinava dos convites para animados jogos de sinuca e até mesmo para o baralho. Tímido, mostrava ao menos um dos atributos que o transformaram no melhor técnico do Brasil: a sede por conhecimento. Enquanto os parceiros se divertiam nos intervalos entre jogos e treinos no Canindé, mergulhava nos livros. Ao perceber a avidez com que Tite lia, os colegas, geralmente avessos à leitura, caçoavam:

– Esse aí quer ser poeta?

Gol do Fantástico e beijo para Rose

Entre março e abril de 1984, Tite foi importante para que a Portuguesa ultrapassasse a segunda fase do Brasileirão. Em um grupo com Flamengo, Brasil-Pel e Inter, no qual apenas dois seguiam adiante, o time se impôs. O lado artilheiro aflorou contra os dois adversários gaúchos. Diante do Inter, no Canindé, fez o único gol da vitória por 1 a 0, aos 35 minutos do primeiro tempo.

Depois do jogo eu fui dar um abraço nele. Ele virou para mim e disse: ‘Abraço o c…, sai pra lá’. Foi engraçado.

TITE

Em entrevista ao Estadão, relembrando encontro com Felipão, então técnico do Brasil-Pel, após a Portuguesa golear o Xavante

Seu grande momento viria semanas depois, em 1º de abril. Contra o Brasil de Pelotas treinado por Felipão, também em São Paulo, a Portuguesa goleou por 4 a 1. Tite abriu caminho com o primeiro gol, aos 25 minutos do primeiro tempo. Depois de Marinho Rã escorar de cabeça dentro da área, enquadrou o corpo e, após a bola quicar, pegou de primeira.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em março de 2015, lembrou como havia prometido para Rose, presente no Canindé naquela tarde de domingo, que mandaria um beijo a ela se marcasse um gol. Só que, assim que a bola entrou, emocionou-se de tal forma que correu para o lado errado. Quando deu a volta e, finalmente, levou as mãos aos lábios para homenagear Rose, colocou-se em frente ao fotógrafo do Jornal da Tarde que fez a imagem da capa da edição no dia seguinte. Naquela noite, o gol foi escolhido o mais bonito da rodada no Fantástico da TV Globo (veja o lance abaixo).

Terminado o jogo, Tite se dirigiu a Felipão para cumprimentá-lo. Ao Estadão, Tite contou:

“Naquela época, a gente se falava e depois do jogo eu fui dar um abraço nele. Ele virou para mim e disse: ‘Abraço o c…, sai pra lá’. Foi engraçado”.

Saudades da família e saída para o Guarani

Em 9 de abril, a Gazeta Esportiva ressaltou: “Na garra do gaúcho Tite, a esperança da Portuguesa contra o Santo André”. O texto recuperava um pouco da trajetória do jogador e falava da solidão que sentia por estar longe dos familiares, mesmo que procurasse se enturmar com os companheiros. Apesar do grande momento em campo, estava em fase de adaptação.

“Com o passar do tempo, as coisas podem melhorar. A tendência é aumentar esse relacionamento. Eu ainda sinto falta de meus familiares e, principalmente, da minha futura noiva”, afirmava Tite.

Atravessava o melhor momento da carreira. Não fiquei por problemas políticos.

TITE

À Gazeta Esportiva, o jogador analisa os motivos para sua saída da Portuguesa

No final da reportagem, outra frase sua parece sair da boca do Tite treinador, já com termos próximos ao que se convencionou chamar de “Titês”. Ao ser questionado sobre o momento da Lusa, fala em “conscientização coletiva”, e diz que “todo jogador, sabendo da sua responsabilidade nos jogos, jamais irá abusar e trazer prejuízos para o time”.

Na terceira fase do Brasileirão, a Portuguesa ficou com a segunda vaga em um grupo com Fluminense, Operário-MS e Santo André. No mata-mata das quartas de final, o Vasco provou ser forte demais: 5 a 2 e 4 a 3. Tite ainda atuou em mais quatro jogos com a camisa do clube, até terminar sua boa passagem pelo Canindé em um 0 a 0 com o Palmeiras, pelo Paulistão. De acordo com números levantados por Sérgio Henriques, pesquisador da história da Lusa, participou de 21 jogos e marcou seis gols – quase um a cada três partidas.

É de se estranhar, então, que não tenha permanecido. Depois, já no Guarani, Tite arriscaria uma explicação em reportagem da Gazeta Esportiva:

“Fui surpreendido com o desinteresse da Portuguesa pelo meu passe. Atravessava o melhor momento da carreira. Não fiquei por problemas políticos, já que tinha sido contratado pela gestão do presidente Raul Rodrigues e, quando o empréstimo terminou, Osvaldo Teixeira Duarte presidia o clube e ele foi o responsável pela minha saída”.

A declaração, quase em tom de protesto, já evidenciava um Tite mais firme, convicto. Pedro Pires de Toledo Filho, que foi seu preparador físico na Lusa e, depois, no Guarani, tem a lembrança de um jovem mais animado, que já participava do carteado com os companheiros nos meses finais no Canindé.

Pedro Pires é um dos responsáveis pela transferência ao Guarani. À época, era amigo de Leonel de Oliveira, presidente do clube de Campinas, e indicou Tite como possível reforço pela qualidade e pelo comprometimento do jogador.

O ex-preparador, que deixou o futebol há 13 anos, ensina que há “jogadores de bola” e “profissionais de futebol”. Tite pertence à segunda categoria.

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