Presidente da Portuguesa: ‘Desde 2017 não conseguimos pegar R$ 1’

Se não bastasse estar na última colocação da Série A2 do Campeonato Paulista, a Portuguesa virou notícia mais uma vez por problemas com a Justiça. Na última segunda-feira (25), por decisão da 8ª Vara da Justiça do Trabalho, o clube teve penhorados cinco troféus como garantia de pagamento de uma dívida de R$ 105 mil com o jogador Fran, que defendeu o time entre junho de 2014 e fevereiro de 2015. 

R7 conversou com Alexandre Barros, presidente do clube, que falou da grave situação da Lusa. “Desde que eu assumi a presidência, em 2017, a Portuguesa não consegue pegar R$ 1 em cotas da Federação Paulista de Futebol e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ou qualquer outra verba, porque a Justiça bloqueou tudo. É difícil manter um clube desse jeito”, lamentou o dirigente.

No dia 18 deste mês, a diretoria do clube convocou eleições para Assembleia Geral, no Conselho de Orientação e Fiscalização e no Conselho Deliberativo. Por falta de candidato, o pleito foi cancelado.

“Ninguém quer assumir um cargo aqui, porque tem medo de ter bens bloqueados. Eu tenho minha conta bancária bloqueada”, afirmou Alexandre. 

A Portuguesa é um dos times mais tradicionais de São Paulo e chegou a ser campeã Paulista, em 1973, vice-campeã do Brasileiro, em 1996, e campeã da Série B, em 2011. Atualmente, está na segunda divisão do Estadual e não participa de nenhuma das quatro séries no Nacional.

Confira a entrevista completa que Alexandre Barros concedeu ao R7.

Como você vê a situação em que a Portuguesa se encontra hoje?
Alexandre Barros: Podemos dividir a história do clube em fases. Antes de 2000, o clube era grande tinha boas receitas. Depois de 2001, com a Lei Pelé a Portuguesa começou a ter muitos problemas financeiros por causa de ações trabalhistas. Não conseguia montar times fortes e caiu para segunda divisão. Em 2011, nós subimos e voltamos para o nosso lugar. Conseguimos ter mais receitas. Aí chegou 2013, o caso Heverton, e degringolou de vez. Caímos para Série B, Série C, Série D, até não conseguir jogar a quarta divisão, porque fomos para a A2 no Paulista e só os times das primeiras divisões estaduais jogam a D.

Por que ninguém se candidatou nas eleições para Assembleia Geral no Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) e no Conselho Deliberativo?
AB:
 As pessoas têm medo de ter bens bloqueados e não se candidatam. Assumi o clube em 2017, tentamos outras duas vezes eleger presidente do Conselho Deliberativo e do COF, mas não conseguimos. Quando finalmente montamos uma mesa diretora, em menos de dois meses todos renunciaram porque advogados começaram a ameaçar bloquear bens.

Você tem bens bloqueados?
AB: Não tenho bens porque minha casa está no nome dos meus filhos. Não sou uma pessoa de posses, mas minha conta bancária está bloqueada. Se amanhã eu comprar um carro, fica bloqueado. Isso vai ser para sempre.

Qual o valor atualizado das dívidas do clube?
AB: Os valores estão em torno de R$ 350 milhões. São dívidas tributárias, fiscais, trabalhistas. Na minha gestão eu não tenho nenhum processo trabalhista. Tem dos credores também, que são valores baixos perto de todas as dívidas.

Que tipo de credores?
AB: Por exemplo, tivemos um jogo em Lins (cidade no interior de São Paulo). Lá tem uns quatro ou cinco hotéis com capacidade para receber o clube. Dois eu não posso usar, porque a Portuguesa tem dívidas porque não pagou na última vez. O mesmo aconteceu em Taubaté.

A Portuguesa não tem nenhuma receita?
AB: Nós temos receita, mas desde 2017 todo o valor está bloqueado pela Justiça. Eu não consegui pegar R$ 1 em cotas da Federação Paulista de Futebol e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ou qualquer outra verba. Por exemplo, aluguel do Canindé (estádio da Lusa) não pego. Para você ter uma ideia, a receita do restaurante ‘Cais do Porto’, que fica dentro do clube, também está bloqueada. É difícil manter um clube desse jeito.

Quais são os gastos para manter a Portuguesa hoje?
AB: Temos gastos de R$ 600 mil para manter tudo do clube, inclusive o futebol que tem um gasto de R$ 350 mil. Atenção que esse valor não é a folha de pagamento do futebol. É tudo. Fazer um jogo no Canindé custa até R$ 10 mil. Fora de casa, o dobro. Se pelo menos tivéssemos 50% das receitas poderíamos respirar. Não é justo, nós não temos nada.

Como você faz para pagar as contas?
AB: Com a ajuda de torcedores abnegados e apaixonados e alguns eventos que realizamos e pedimos o pagamento à vista. Além disso, todos os nossos patrocínios são por permuta. Os patrocinadores nos prestam um serviço e divulgamos a marca.

Como resolver este problema?
AB: 
O único jeito que vejo é com a modernidade. Por que digo isso? O terreno onde fica o clube é muito valioso e precisamos fechar acordo com grandes empresas para ser lucrativo para o clube e para empresa. Não é vender o local não ter mais a Portuguesa. Como fez o Palmeiras, com o Allianz Parque, é criar uma arena, um shopping, um clube verticalizado. Com isso, conseguiríamos negociar as dívidas, pagar as dívidas e voltar a pensar.

Se as receitas não fossem bloqueadas a Portuguesa conseguiria se manter?
AB: Conseguimos. Contado, sem pagar nenhuma despesa extra, mas daria certo.

Você acredita que o time consegue não cair para a terceira divisão do Paulista?
AB:
 Nós colocamos a Portuguesa nessa situação e temos de tirar. Tentei trazer o técnico Paulo Roberto. Ele veio ver um jogo e achou que não conseguiria tirar o clube da situação. Agora vamos tentar com o Vica. Precisamos de cinco vitórias em seis jogos para ficar entre os oito e classificar. Ainda não ganhamos nenhum jogo. Mas preciso acreditar.

Com mandato até dezembro deste ano, você se arrepende de ter assumido a Portuguesa?
AB: 
Sabe um apaixonado que luta por aquilo que ama? Este sou eu. Não vou desistir e a renúncia nem passa pela minha cabeça. Mas vou mentir para você se eu disser que nunca pensei: “não deveria ter assumido”. Mas eu sou um apaixonado!

Rating: 5.0/5. From 2 votes. Show votes.
Please wait...

Comments

comments